"Café Negro como o diabo
Quente como o inferno
Puro como um anjo
Doce como o amor"
Estes versos, escritos por Talleyrand no século XVIII, retratam a diversidade de sensações às quais remete esta bebida quente, estimulante, de aroma e sabor característicos. Não se sabe ao certo a origem da palavra café, que pode significar tanto a bebida quanto a planta ou o fruto. Ela pode vir da palavra kaffa, da Abissínia, atual Etiópia; pode também ser originária do árabe karah (ou gavah), que quer dizer vinho ou, então, kahwah (ou cahue), que significa força, ou pode ainda ter origem no idioma turco, nas palavras koveh ou kaveh, que também denominam o vinho.
Planta da família das Rubiáceas – assim como o jenipapo, a quina e o mulateiro de várzea, muito utilizadas com objetivos farmacêutico e curativo –, tem sua origem nas regiões montanhosas africanas da Abissínia, ou na região de Kaffa e Enária, que hoje compreendem o sudoeste da Etiópia, sudeste do Sudão e norte do Quênia.
Existem várias lendas a respeito da descoberta do café. A mais difundida diz que, por volta do ano 800, nas montanhas da Abissínia, um jovem pastor de nome Kaldi observou que suas cabras ficavam mais alegres e saltitantes quando comiam folhas e frutos de um certo arbusto. Ao provar do fruto, o pastor sentiu uma forte vivacidade e muita disposição para o trabalho.
O conhecimento do efeito daquele precioso fruto espalhou-se pelo norte da África e chegou ao mundo árabe, primeiros povos a fazerem uso do café, em meados do século XV (1440). No início, os frutos eram consumidos como uma pasta fortificante e usada para que os árabes ficassem acordados orando para Alá, seguindo os conselhos do seu profeta Maomé. A proibição de bebidas alcoólicas pela religião muçulmana ajudou a difundir o café, que passou a ser largamente consumido.
A fama dos frutos foi se alastrando, chegando aos mosteiros, onde os monges passaram a preparar uma infusão das folhas juntamente com o fruto em forma de chá. Certo dia, um dos monges levou alguns ramos de café carregados de frutos para perto do fogo para tentar secá-los a fim de guardá-los e usá-los durante o período de chuvas. Porém, distraiu-se, deixando os grãos torrarem, de onde exalou um aroma extremamente agradável.
Os monges tiraram os grãos do fogo e trituraram-nos, transformando-os em pó e preparando a bebida. Daí surgiu a forma de tomar o café como o conhecemos hoje.
Nos séculos XIV e XV, iniciaram-se os primeiros cultivos comerciais de café, na região do Iêmem e os doutores da época passaram a receitá-lo no combate aos problemas de digestão, para alegrar o espírito e afastar o sono. No século XVI, o café já havia chegado a Istambul. O Cairo era, então, o maior mercado de distribuição do produto.
Embora os árabes tenham tomado certas medidas para manter o monopólio da produção do café – só permitindo a exportação de frutos previamente fervidos, para evitar que germinassem em outras terras –, os holandeses conseguiram contrabandear frutos frescos para suas colônias asiáticas (Java, Ceilão e Sumatra) e, posteriormente, para as Antilhas Holandesas, na América Central.
Graças aos holandeses, o café começou a ser conhecido no mundo. Levado para a Europa, foi consumido inicialmente como remédio para vários males. Só a partir do século XVII passou a ser adotado como bebida. Na Itália, sofreu forte pressão de cristãos fanáticos, que a consideravam uma invenção de Satanás. E, na Inglaterra, as mulheres passaram a dizer que o café era o “licor debilitante, que tornava seus maridos infecundos e inúteis”. Este preconceito chegou a tal exagero que, em 1674, divulgou-se, na Europa, o panfleto A Petição Feminina Contra o Café, que apregoava os malefícios da “água suja, nauseante, amarga e escura”. Chegou-se ao ponto de a bebida ser proibida para consumo pelos cristãos. Na Itália, onde entrou em 1615 através do porto de Veneza, o produto teve que vencer forte resistência da Igreja. Cristãos fanáticos incitaram o Papa Clemente VIII a condenar o consumo da bebida, tida como invenção de satanás. Ao provar o café, porém, o papa declarou: “Esta bebida é tão deliciosa que seria um pecado deixá-la somente para os infiéis. Vençamos satanás, dando-lhe nossa bênção e tornando-a verdadeiramente cristã”. Em decorrência dessa bênção papal, os cafés proliferaram em Veneza e Gênova e, no fim do século XVII, eram encontrados em todo o país.
Apesar das campanhas contra o seu consumo, aos poucos, o café se espalhou por todo o mundo, convertendo-se na bebida universal de ricos e pobres, sem distinção de raça, religião ou cultura. Hoje, a bebida está voltando a ser recomendada também como remédio na luta contra o alcoolismo, a depressão e o suicídio e, ainda, na prevenção de doenças, como a doença de Parkinson e o mal de Alzheimer. Isso porque pesquisas recentes estão concluindo que o café é um alimento nutracêutico, ou seja, com valores nutricionais e farmacêuticos. Porém, seus grandes valores continuam sendo seus incomparáveis sabores e aromas, tão característicos para quem aprecia um bom café: negro, quente, puro e doce.
Café no Brasil
"A história do Brasil foi escrita com a tinta do café."
O café é uma página muito especial na história do Brasil. Maior gerador de riquezas e produto mais importante da história nacional, o café é capaz de descrever todo o desenvolvimento do país a partir de sua própria história, sua chegada, seu plantio, sua comercialização e seu sucesso no exterior. O café construiu o Brasil e apresentou-o ao mundo.
Desde sua descoberta, na Abissínia, o café levou cerca de nove séculos até sua chegada ao Brasil, em 1727. Entrou no país pelo estado do Pará, trazido da Guiana Francesa pelas mãos do sargento-mor Francisco de Melo Palheta que, a pretexto de resolver oficialmente questões de fronteiras, havia sido enviado àquele país para conseguir mudas da planta. A missão foi difícil, já que naquele país as mudas de café eram inacessíveis a qualquer estrangeiro.
Inicialmente plantado em Belém do Pará, o café adaptou-se ao solo, mesmo não tendo um clima tão propício à sua cultura, tanto que, em 1731, já era cultivado em extensas áreas nos arredores da capital. Por volta de 1732, foi instalada, em Nova Iorque, a primeira bolsa de café e o produto passou a ser comercializado no mercado mundial como uma commodity.
Da região Norte, o café foi para o Nordeste, passando pelo Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia, até chegar, em 1773, ao Rio de Janeiro. Expandiu-se pela Serra do Mar, atingindo, em 1825, o Vale do Paraíba, daí alcançando os estados de São Paulo e Minas Gerais, onde encontrou condições para o seu desenvolvimento. O clima e as terras férteis da região transformaram o Brasil no maior produtor mundial de café no final do século XIX.
Pelos idos de 1830, o café transformara-se no principal produto de exportação, ultrapassando o algodão e o açúcar e, em 1845, o Brasil já era responsável por 45% das exportações mundiais do produto. A história mostra fatos interessantes relativos aos primeiros cafés plantados no país. Um cafeeiro de Amsterdã, Holanda, deu origem aos cafezais de Suriname, da Guiana e do Brasil. Novamente, foi de um cafeeiro do Rio de Janeiro que se originaram as primeiras plantações dos estados do Rio, Minas Gerais e São Paulo. Também uma única planta de Jundiaí, estado de São Paulo, deu origem aos cafezais de Campinas e regiões circunvizinhas.
Os primeiros cafezais brasileiros foram, portanto, descendentes de uma única espécie, Coffea arabica ‘cv. Arábica’, café também conhecido por Typica. A pequena variabilidade genética que existia era devido à constituição genética da planta original ou às raras mutações que surgiram com o decorrer do tempo.
Aos poucos, os cafezais de São Paulo e de outras regiões do Brasil foram se diversificando. Assim, em 1852, chegaram ao país sementes do café bourbon vermelho (C. arábica ‘cv. Bourbon Vermelho’), que o governo central mandara buscar na ilha de Reunião, situada no continente africano, por ter informações de que era mais produtivo e de boa qualidade.
Em 1896, foram introduzidas sementes de café da ilha de Sumatra, que era tido como bem produtivo, vigoroso e de sementes maiores do que as do bourbon vermelho.
O sumatra revelou-se bastante rústico, de boa bebida, sementes pouco maiores do que as do bourbon, porém, suas produções não foram muito animadoras.
Com a grande expansão do cultivo do café, algumas variedades surgiram no Brasil, devido a raras mutações que naturalmente ocorrem ou devido a recombinações de fatores genéticos, a partir de cruzamentos naturais entre as cultivares existentes.
Assim, em Botucatu, estado de São Paulo, em 1871, foi encontrado, pela primeira vez, um cafeeiro com frutos amarelos.
O café esteve presente em todos os momentos históricos do país. Logo após a Independência, foi o café o fator de desenvolvimento e modernização do Brasil, pois, para escoar sua produção, foram construídas estradas de ferro, abertos novos portos, o número de bancos foi ampliado e o comércio tornou-se mais ágil. Durante o Segundo Reinado (1840-1889), o Império Brasileiro passou a ser conhecido como o Império do Café, já que a monarquia de D. Pedro II, bastante centralizadora, atendia, sobretudo, aos interesses dos fazendeiros do vale do Paraíba, grandes produtores de café. As fazendas de café concentraram toda a riqueza brasileira durante três quartos de século.
Sua influência não foi só econômica, mas também social e política. Os mais importantes fatos ocorridos no Brasil foram devido à lavoura, que formou a última aristocracia do país. Os fazendeiros produtores do grão enriqueceram e muitos tornaram-se tão famosos que passaram a ser chamados de Barões do Café.
Em 1906, a produção brasileira superava o patamar de 22 milhões de sacas. No mesmo ano, foi celebrado o Acordo de Taubaté, que proibia novos plantios de café no estado de São Paulo. Em conseqüência, a expansão da cultura foi maior no Paraná.
Com a crise de 1929, decorrente da quebra da Bolsa de Nova Iorque, ocorreu uma desestabilização no mercado interno. Os financiamentos junto aos bancos estrangeiros foram interrompidos; os preços despencaram, levando o setor para uma enorme crise. Na década de 1930, houve uma derrocada da lavoura e a queima de 80 milhões de sacas.
Em virtude de sua importância nas exportações brasileiras, em 1931, foi criado o Conselho Nacional do Café (CNC) que, em 1933, foi substituído pelo Departamento Nacional de Café (DNC), autarquia federal subordinada ao Ministério da Fazenda, que controlou o setor até 1946, quando foi extinto. Em 1952, foi criado o Instituto Brasileiro do Café (IBC), formado principalmente por cafeicultores e que definiu as diretrizes da política cafeeira até 1989. Para dirigir a política cafeeira no país após a extinção do IBC, foi criado, em 1996, pelo Governo Federal, o Conselho Deliberativo da Política do Café, vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que atua até os dias de hoje.
O café brasileiro na atualidade
Atualmente, o Brasil é o maior produtor mundial de café, sendo responsável por 30% do mercado internacional de café, volume equivalente à soma da produção dos outros seis maiores países produtores. É também o segundo mercado consumidor, atrás somente dos Estados Unidos.
As áreas cafeeiras estão concentradas no centro-sul do país, onde se destacam quatro estados produtores: Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Paraná. A região Nordeste também tem plantações na Bahia, e da região Norte pode-se destacar Rondônia.
A produção de café arábica se concentra em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia e parte do Espírito Santo, enquanto o café robusta é plantado, principalmente, no Espírito Santo e Rondônia.
As principais regiões produtoras no estado de São Paulo são Mogiana, Alta Paulista e Região de Piraju. Uma das mais tradicionais regiões produtoras de café, a Mogiana, está localizada ao norte do estado, com cafezais a uma altitude que varia entre 900 e 1.000 metros. A região produz somente café da espécie arábica e as variedades mais cultivadas são o Catuaí e o Mundo Novo. Localizada na região oeste do estado, a Alta Paulista tem uma altitude média de 600 metros e é produtora de café arábica, sendo a Mundo Novo a variedade mais cultivada. A região de Piraju, a uma altitude média de 700 metros, produz café arábica, com cerca de 75% da variedade Catuaí, 15% da Mundo Novo e 10% de novas variedades, como Obatã e Icatu, entre outras.
Em Minas Gerais, as principais regiões produtoras são Cerrado Mineiro, Sul de Minas, Matas de Minas e Jequitinhonha. A altitude média do Cerrado Mineiro é de 800 metros e, dentre o café arábica cultivado, a predominância é de plantas das variedades Mundo Novo e Catuaí. O Sul de Minas também produz apenas café arábica e a altitude média é de aproximadamente 950 metros. As variedades mais cultivadas são o Catuaí e o Mundo Novo, mas também há lavouras das variedades Icatu, Obatã e Catuaí Rubi. A região das Matas de Minas e Jequitinhonha está a uma altitude média de 650 metros e possui lavouras de arábica das variedades Catuaí (80%) e Mundo Novo, entre outras.
O Paraná chegou a ter 1,8 milhão de hectares dedicados ao cultivo de café. Hoje esse número é de apenas 156 mil hectares, mas, o café ainda está presente em aproximadamente 210 municípios do estado e é responsável por 3,2% da renda agrícola paranaense. É cultivado nas regiões do Norte Pioneiro, Norte, Noroeste e Oeste do estado. As áreas de cultivo são muito extensas, o que justifica a grande variação de altitudes. A altitude média é de aproximadamente 650 metros e, na região do Arenito, próximo ao rio Paraná, a altitude é de 350 metros e na região de Apucarana chega a 900 metros. No estado, é cultivada a espécie arábica e as variedades predominantes são Mundo Novo e Catuaí.
A cafeicultura na Bahia surgiu a partir da década de 1970 e teve uma grande influência no desenvolvimento econômico de alguns municípios. Há, atualmente, três regiões produtoras consolidadas: a do Planalto, mais tradicional produtora de café arábica; a região Oeste, também produtora de café arábica, sendo uma região de cerrado com irrigação e a Litorânea, com plantios predominantes do café robusta (variedade Conillon). Na região Oeste, um número expressivo de empresas utilizando alta tecnologia para café irrigado vem se instalando, contribuindo, assim, para a expansão da produção em áreas não tradicionais de cultivo e consolidando a posição do estado como o quinto maior produtor com, aproximadamente, 5% da produção nacional. No parque cafeeiro estadual predomina a produção de café arábica com 76% da produção (com 95% sendo da variedade Catuaí) contra 24% de café robusta.
No Espírito Santo, os principais municípios produtores são Linhares, São Mateus, Nova Venécia, São Gabriel da Palha, Vila Valério e Águia Branca. O café foi o produto responsável pelo desenvolvimento de um grande número de cidades no estado, onde são cultivadas as espécies arábica e robusta (Conillon), tendo sido marcante a produção desta última, que se expandiu principalmente nas regiões baixas, de temperaturas elevadas. Atualmente, as lavouras de robusta ocupam mais de 73% do parque cafeeiro estadual e respondem por 64,8% da produção brasileira da variedade. O estado coloca o Brasil como segundo maior produtor mundial de Conillon.
No estado de Rondônia, a produção de café está concentrada nas cidades de Vilhena, Cafelândia, Cacoal, Rolim de Moura e Ji-Paraná. No cenário nacional, Rondônia é o sexto maior estado produtor e o segundo maior estado produtor de café Robusta, com uma área de 165 mil hectares e uma produção de 2,1 milhões de sacas, constituídas exclusivamente pelo café robusta (variedade Conillon).